Textos

Vou fugir

25/01/2016

Quando meu irmão caçula era pequeno e minha mãe o contrariava por qualquer motivo, a primeira reação dele à frustração era: “-Vou fugir!” E o danado fugia. Saía, com seus cinco anos e suas pernas curtas, pela rua desembestado. E o que acontecia? Eu e minha mãe saíamos atrás dele como duas loucas. Rapidamente ele nos adestrou. Entendeu que o mecanismo de fuga era uma forma de conseguir obter o que queria de nós, aquelas que o amávamos. Após um tempo, percebemos que se não fôssemos atrás, ele voltava em dois minutos e aceitava o não que recebera. Aí, foi a nossa vez de adestrá-lo.

Mais tarde, depois da morte de meu pai, minha mãe passou a adotar as técnicas infantis do meu irmão. Qualquer trabalho que nós dávamos, qualquer briga que tínhamos, era: -“Vou pegar minhas coisas e vou sumir!” Querendo ou não, essa frase continha o mesmo conteúdo do “vou fugir” do pequeno. Era como se partir fosse, realmente, resolver o problema dela. Mas, passado o luto e a grande frustração que este lhe trouxera, ela cresceu e entendeu que sumir – ou fugir – não resolveria seus problemas nem faria com que seus filhos parassem de implicar um com o outro como bons irmãos que se amam. Ela se superou ficando e nos amando.

Infelizmente, com a vida a gente aprende que frustração só se resolve frustrando-se. Só assim passamos um atestado ao mundo dizendo que entendemos que ele não pulsa no ritmo que queremos e que, por vezes, teremos de ficar e resolver, em vez de fugir. Fugir, sumir, nada disso some com a nossa dor. Só ficar amadurece. Só ficar e lutar contra aquilo que nos aborrece nos faz avançar mais rápido nas casas do tabuleiro da vida. Fugir só prolonga a agonia, só posterga nossa chance de encontrar uma possível solução.

Não tem outro jeito: é ficar e lidar! E é muito importante que aqueles que amamos nos permitam vivenciar as frustrações. Esses espinhos são o que nos tornam resistentes. Somente com eles aprendemos a dominar e a superar as dores. É dizendo aos nossos irmãos, pais e amigos: “Vá, fuja! Vá, suma!” que mostramos que correr dos problemas, apesar de ser uma opção, não resolve nada, do contrário, só faz acumular sofrimentos. É, se tudo fosse tão fácil quanto gostaríamos, seríamos todos crianças mimadas. E todo mundo sabe que o pior defeito das pessoas mimadas é nunca estarem satisfeitas com o que têm ou com o que são!

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