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Sou um objeto de consumo

25/07/2017

Sou um objeto de consumo porque me consumo em coisa. Sou um objeto de consumo porque consumo, porque com sumo – ou sem – acabo-me consumindo até o que não se tem. Sou um objeto de consumo que se consome comendo, bebendo, perdendo, gastando, lambendo, dizendo, querendo. Sou um objeto de consumo consumindo o inconsumível da existência. Sou um objeto de consumo que se deixa levar a prazo, à vista, sem lista, sem preço nem registro de estoque. Sou um objeto de consumo que não se consome porque não se tem. Sou um objeto de consumo que se deixou consumir nas coisas vazias espalhadas pelas prateleiras da vida. Sou um objeto de consumo em exposição em galerias de arte, em vitrines de marcas famosas, em réplicas de camelôs. Sou um objeto de consumo, sonho de desejo da vida alheia. Sou um objeto de consumo de carne, de osso, de olhos que tateiam o desperdício do olhar, do ver, do viver. Sou um objeto de consumo que não tem bula, que não tem remédio, que não traz embalagem, que não traz atrás. Sou um objeto de consumo que se consome no dia a dia, no noite a noite, no tarde a tarde. Sou um objeto de consumo que sonha que sonha, que diz que diz, que faz que faz. Sou um objeto de consumo que muda de pose, que dobra as juntas, que junta as dobras, que se refaz. Sou um objeto de consumo que se come, que se bebe, que se perde, que se gasta, que se lambe, que se diz, que se quer no consumir. Sou um objeto de consumo que só quer sumir. Sou um objeto de consumo despercebido no consumível das coisas diárias e breves e breves e tão breves que não se tem tempo de se perceber. Sou um objeto de consumo que não se percebe, que se passa direto, que se olha torto, atravessado, atravessado pelos olhares que se cruzam sem se consumir, sem se consumar, sem se com. Sou um objeto de consumo de massa, de farinha, de amassar, de se jogar fora, de sumir, de se existir para se descartar. Sou um objeto de consumo porque sou um objeto de gente. Sou um objeto de gente de consumo porque sou um objeto de ter. Senão, seria só gente. Um objeto descartável de ser.

Crédito da Foto: Tanner Mardis.

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