Reflexão/comportamento

No giro do que não é amor

14/02/2018

Há algumas semanas, uma ex aluna minha da Faculdade de Letras da Federal de Minas Gerais, entrou em contato para saber se ela poderia usar o meu livro “Poços dos Desejos” em sala de aula. Ela queria trabalhar a temática do amor com seus alunos, mais ou menos sétimo ano, e decidiu trabalhar um texto da minha obra chamado “No giro do Amor”. (pra quem quiser assistir, o vídeo está aí.

Como vocês podem ver, o texto fala sobre o poder do amor em nossas vidas e a vontade que o ser humano tem de amar. Mas, claro, um amar com asas, um amar que solta, que cede, que dá liberdades, que aceita. Contudo, ao contrário do que fora previsto pela minha ex-aluna, agora professora, o poema em prosa acabou levantando um debate acalorado sobre o lado sombrio do amor.

Na hora em que ela me falou, eu achei muito intrigante. Nunca, em nenhum momento de minha escrita, eu pude sequer sonhar que ela levaria alguém a pensar no amor pelo viés da morte. Sim, porque a associação que os alunos fizeram — jovens da periferia de Belo Horizonte — foi de um sentimento amoroso que, muitas vezes, era causa de morte. Morte?!, jura?!, eu dizia pra ela. E: sim, morte, pois muitos deles já haviam perdido familiares e amigos para esse tal “amor”.

E foi aí eu entendi que, para muitas pessoas, uma mesma palavra quer dizer outras muitas palavras. Para mim, não havia outra interpretação para o amor, senão a de vida, paz, harmonia, liberdade, cumplicidade, respeito, união, afeto, reconhecimento do direito do outro de ser feliz, ainda que não seja ao meu lado, enfim, essas coisas que nos fazem associar este sentimento a algo próximo do milagre, do divino. Só que, para aquelas crianças, amar era algo diferente. Quase uma sentença de morte. E ser amado também. Por amor se matava, por amor se estuprava, por amor se violentava, por amor se batia, por amor se maltratava, por amor se acorrentava, por amor se chorava, por amor, por amor, não, não, não mais por amor, por favor, por amor não mais…

E como eu disse pra ela, tá aí, um ótimo momento para um professor cumprir um papel muito maior do que aquele de suposto “passador de conteúdo”, com o qual eu nunca concordei… Tá aí, uma excelente oportunidade para um professor oferecer uma ampliação do sentido do que é ser verdadeiramente humano aos seus alunos.

Explicar para eles a diferença entre o verdadeiro e o falso amor. Aliás, a diferença entre o amor e aquilo que se diz ser amor, mas que é apenas apego, apropriação e ódio. Não sei qual foi a postura adotada pela minha colega, nem o desfecho do “causo”. Mas espero, sinceramente, que um dia as pessoas descubram a verdadeira essência deste verbo, tão mal compreendido, chamado amar. E que entendam que os únicos nós cabíveis neste sentimento são os poderosos laços dos abraços.

 

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