Textos

Dois bichos

21/01/2016

Quando soltaram os primeiros fogos a cachorra correu. Enfiou-se debaixo da cama. Chorou. Era um choro agonizante. Não entendia. Só queria fugir. Tremia. Fui ao banheiro. Ela veio atrás. Olhava pra mim e gemia, tremia. Seus pelos balançavam tamanha sua aflição. Ela não sabia. Eu sabia. Eu lhe pedia calma, eram apenas barulhos de explosões. Ela continuava sem saber. Não entendia porque era um bicho. E os bichos não sabem de nossas explicações. Só entendem o barulho. E o medo. E a cachorra, a cada foguete, entendia mais do medo do que eu lhe poderia explicar. Porque o sentimento é melhor sentido quando se sente. Quem não o sentiu não o conhece. Tampouco o amor. Sentimento de bicho parece o mesmo de gente. Mas é pior. Pior. O medo a invadia pelas orelhas. E a percorria fazendo sentido. E minhas explicações de gente – que também lhe adentravam – não lhe faziam sentido algum.  Explicações de gente não têm razões de bicho. Então, o que ela queria? Como eu poderia lhe falar? Qual seria a sua língua? Tanto tempo de convivência… Tanta nutrição de carinho… Nas horas em que eu acordava aos prantos, ela estava ali, aos meus pés, enchendo-me de ternura com suas lambidas. Será que ela entendia? Ela não sabia por que eu chorava, mas sabia. Sabia como me consolar. E agora eu ali, com tanta racionalidade e sem habilidade alguma para ser selvagem. Selvagem como a cachorra que sabia me consolar. Minha racionalidade era tanta que eu não sabia lambê-la. Adiantaria, se eu a lambesse como ela me lambia nas noites desoladas? Passei-lhe as mãos no corpo. Eram três corações batendo em um. Numa velocidade. Um sangue que dava voltas e voltas em milésimos de segundo naquele corpo animal. Eu era um bicho grande incapaz de consolá-la. Incapaz de lhe explicar o inofensivo daqueles estrondos. Passados os fogos, ela se aconchegou perto da minha cama. Era como se me dissesse: ‘Fique tranquila que o pior já passou.’ Como não pude respondê-la, fiz o que qualquer bicho faria: aconcheguei-a em meu silêncio. Naquela noite, dividimos a noite. Ela, dormindo com sua compreensão instintiva; Eu, acordada com meu racional bicho sem compreensão…

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