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Encaixando meus bloquinhos

08/03/2016

Sempre me tracei planos que não me eram genuínos. Eram sonhos inventados pr’eu poder me esborrachar com a certeza de que, se não dessem certo, eu poderia me dizer: “Ah, não era mesmo o meu sonho!” Por acaso, de tanto fingir que acreditava eu, por um momento, acreditava, de fato, na possibilidade e ia atrás da falsa realização… Realizava aquele sonho e, logo depois da conquista, o soltava como quem oferece um lenço ao mar. A vontade era só chegar. Provar que poderia. Provar que, se o meu sonho fosse aquele, eu o teria alcançado. Enquanto isso, eu ia enterrando fundo o meu desejo. Meu sonho de escrever preso em mim desde a infância. Aquele dom que me vem sem fazer força era-me reprimido por devaneios de um alguém covarde. Mas hoje é diferente…

Estou no escuro do meu sonho. De frente pra um oceano no meio da noite sem saber que tijolos me esperam na outra margem do horizonte. Dá calafrios. Dessa vez não tem esboço. Dessa vez é a vida real, é o meu paraíso que está na corda bamba. Se eu tombar por não chegar aonde a minha vontade me leva, serão os meus ossos que se espatifarão. Dá um medo. Um medo do desconhecido que tanto nos acalenta com sua adrenalina. Isso é a vida. Essa inquietação que nos faz vencer a falta de luz e andar sem saber onde é que se apoia. Onde é que se apoia? Onde é que a gente se apoia pra não cair quando o sonho é de verdade? Já inventei tantas fantasias. Já vivi tantas mentiras que pra mim pareciam verdades. Não eram. Mas hoje é. E sair de Neverland… Ai, que aterrorizante.

E o farol do barquinho vem de longe… O barqueiro anunciando a sua chegada. Quem vai, vai, quem não vai ficará de vez. Eu vou, moço! Eu vou crescer! Eu vou me casar com o meu sonho emocional e me comprometer com o único modo profissional que tenho pra viver. É a segunda mudança mais radical que vivo. A primeira foi deixar de ser feto. Mas dessa eu nem me lembro. Então, o que eu faço com o medo que sinto de encaixar meu último bloquinho e completar a ponte que me faz chegar ao outro lado? Onde é que eu guardo esse medo? Não guardo?! Mostro, é?! E a vergonha que dá? Parece fragilidade. Uma fragilidade que não cabe mais na pessoa que me fiz. Uma pessoa de tanta felicidade que a dor só consegue me fazer uma visita de poucos minutos. Depois parte me deixando feliz de novo. E é tão diferente… Tão diferente do que aquela menina estava acostumada. Ela, que vivia trancada numa caixinha de dor se cortando diariamente com pensamentos tristes. Agora, não… Agora essa mão gigante me trocou de caixinha e me fechou num cofre de felicidade. E isso é tão bom, tão bom, que só me faz aumentar o medo da perda. Pois uma coisa é sempre ter vivido na caixinha da dor. Outra é ter experimentado a felicidade e pensar que, a qualquer momento, a mão gigante pode me tirar desse refúgio. Triplica-se o pavor. É que a morte me frequentou cedo… Fui uma criança que perdeu o pai pro Infinito. O quê? Ah, você não entende assim?! Não acha que foi perda? Não?! Então, foi o quê? É, você razão… Desde quando a gente “perde” algo pra Ele?! É, você tem razão… Nada nesse mundo é nosso. E se as pessoas se vão, é porque chegou a hora da devolução. Desculpe. É que eu pensava ser a dona desse empréstimo…

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