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Poços dos Desejos

16/03/2016

Nos escorpiões concebidos em dias de carne fácil de carnaval, nascem paixões que se cruzam e cruzam poesia em pingos de suor… Não sei como não me inspirei literariamente de cara ao te ter. Foi assim. Inspiração física tão forte que enfraqueceu a alma versada, sufocando, em mim, as palavras… Minha língua virou sua e sua água sal em mim. E quando meu corpo virou seu brinquedo de parque de diversões pensei: é  agora! É agora o cume da montanha-russa que me atirou ao ar no colo da queda-livre… Como é que se vive caindo? Caindo de amores por você? Tombo em asfalto quente que arranha joelho, mas dispensa curativos, porque é tão bom ralar nesse chão… É que aqui são só trapos, mesmo,  que você costura juntando a minha pele à sua. Usa, então, agulha de ponta fina e me aponta a ponta branca do seu sorriso. Vai me tecendo devagar em seu cheiro e, nesse meu corpo que já te fora doado sem que eu soubesse, faz habitar sua alma mau-pagadora,  que me deixa vencer a conta de energia elétrica porque sabe que o escuro também faz luz… Como é que se lava esse seu olhar da pele? Como é que se faz pra tirar esse seu perfume que não me sai da mão? Todos os solventes testados só serviram de fixadores  ao sentimento latente. No abismo da memória tudo continua intacto, como nos quartos das primeiras noites bagunçadas. Eu permaneço te “estranhando” em castelhano que é pra te estranhar português em saudades… E, nas entranhas, seu recheio, inflando todos os meus receios de pensar que poderia um dia me faltar esse céu de você. Dá um medo… Aquele medo de ficar sem um teto do tamanho do amor, imagina?! Toda essa insanidade não é loucura, é sentimento. É soluço amarrado no ar da garganta. É amor de níqueis catados centavo por centavo pelos poços dos desejos da vida, esses tijolos de horas curtas… Pra cada desejo seu, uma moeda é cunhada em mim… Então, vai. Enriqueça logo às minhas custas porque eu te desejo num acúmulo de metais que não se satisfaz nesse planeta de poucas minas. Então, vai. Enriqueça logo às minhas custas porque eu nasci pra isso: pra bancar suas vontades mimadas e assim – só assim – me comprar uma satisfação sem preço de te ter.

Foto:  Quentin Keller

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1 Comment

  • Reply Elisa 16/03/2016 at 23:46

    Mirad que lindo!! ‘Te estraño’ de tantas saudades… <3 Belíssimo! Ay marejou…

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