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O Homem de Vidro

29/06/2016

          Quando o homem de vidro apareceu todos pensaram se tratar de mais um avanço da tecnologia, da robótica. Não era. O homem de vidro era um homem só homem, um homem de vidro. E, como homem de vidro, era transparente e talvez, por isso, tão aterrador, tão aterradoramente sincero e comum, tão aterradoramente transparente. O homem de vidro era a vitrine do homem. Por seu cristal límpido se via o homem refletido. Sua pele, camada lúcida, mostrava com toda sua limpidez o que havia dentro de qualquer um. No homem de vidro, o homem de carne e osso se via como se pudesse tocar os mistérios da alma, se é que a alma tem lá mistério algum… E o qualquer homem atravessava o olhar no homem de vidro e o via sem se reconhecer. Via seu baço, seu fígado, seu sangue em pleno pulsar. Era o coração da humanidade que batia nu e nuamente naquele peito que subia e descia como qualquer outro impulsionado pelo ar ofegante da respiração da vida. O homem de vidro revelava a configuração do homem e o expunha até a essência. Até o brilho dos pensamentos, e suas ínfimas correntes elétricas, podia ser visto no homem de vidro quando ele olhava uma rosa de cor viva, um animal de carne vivo, uma pessoa vestida cobrindo tudo aquilo que o homem de vidro mostrava sem pudor. O homem de vidro era nu e nu andava. Até as partes naturalmente condenadas aos esconderijos dos tecidos estavam à mostra. Tudo livre, um doce no gingado da liberdade. O homem de vidro era humano, mas com uma diferença: ele era totalmente transparente. O homem de vidro tinha sua vida escancarada pelas retinas dos homens. Ele era devassável e, com isso, devasso… Quem era o homem de vidro, senão um homem sem máscaras? Seria possível isso? Um homem inteiramente despido? De carne, de osso, de sangue e sem camadas e camadas sociais? Pensaram se tratar de Adão, mas Adão fora feito do barro, da terra. Se bem que o vidro também é feito da areia. E a areia também é terra… Mas não, concluíram, Adão já havia morrido e o homem de vidro vivo ainda pulsava, visivelmente, entre nós. Dentro do homem de vidro havia quem ele era: ele era o ser. O ser que se é… Em cada parte sua, guardava-se estampado um pedaço da memória do que seus olhos viam. O homem de vidro era feito de seus pais, seus tios, seus primos, seus amigos, seus livros, suas risadas, seus jardins, suas peças de teatro, seus filmes prediletos, suas dores, seus amores… Tudo aparecia naquela exposição exposta da vida fraturada. Até o ódio, por vezes, podia ser nele visto. O ódio era a imagem que também habitava o homem de vidro, molde do próprio homem de carne… Segundo a parteira que o pariu, o homem de vidro nascera quase invisível. Tirando a fina camada vítrea de pele e de órgãos, o homem de vidro era ainda quase sem imagens, uma tabula quase rasa, uma tela quase em branco, um quadro ainda longe das mãos das tintas da vida com capacidade cognitiva ainda a ser ativada pela experiência; ainda a ser preenchida para ser um ser. Um ser só é se preenchido de ser, senão é só uma máscara, um sobretudo ambulante, uma casca de ser. Foi como eu disse… No início pensaram ser um avanço da robótica. Isso não seria susto nenhum. Aliás, seria até aceitável. Mas um homem de vidro, inteiramente transparente, era demais pro homem. Um homem de vidro expunha muito do ser envernizado, mosaicado, vitrificado-translúcido que o homem é; expunha muito do ser encapuzado pela carne que olhava pra ele e, de tanto se reconhecer, não se queria, não se queria ver. O homem de vidro, de tão igual e transparente, tornara-se, para o homem de carne e osso, uma insuportável aparição. Por ser ainda carne, o homem ainda não estava preparado praquilo. Se ao menos ele fosse de mentira – mais uma mentira do homem -, uma nova suposição, uma nova ficção, um avanço da robótica… Mas humanamente revelado, o homem de vidro era simplesmente insustentável. Era insustentavelmente humano para o olhar humano. E, assim, o homem de carne decidira pela morte do homem de vidro. Morto, com a morte vista em toda sua profundidade pelos olhos dos homens, o homem de vidro tornara-se, então, objeto de contemplação, junto com todos os mártires… O homem de vidro era o inalcançável sucesso do homem que não se lembrava mais que, em criança, já fora também um homem de vidro… Mas, crescido, não! O homem não poderia encarar aquela aberração adulta de homem. Homem? Que homem?! Que homem de carne suportaria olhar pelo buraco da retina da dura fechadura da existência humana?!

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