Contos/Histórias Textos

A doença do menino encantado

14/02/2017

     Os pais perceberam algo de errado. Parecia uma criança normal, sem ser. É que entendia o mundo diferente. Os olhos não viam. Tudo o que ele via, via pela boca. No início, achavam engraçado aquela criança boquiaberta. Rapidamente, entenderam que aquilo não era fascinação pelo mundo, mas uma nova forma de enxergá-lo. E médico nenhum dava conta daquela doença. Que coisa estranha era aquilo?! Os pais começaram a temer pelo filho. Pediam pra que ele ficasse de boca fechada, que era pra não assustar as pessoas. Mas não tinha jeito. Sem poder ver, o menino começou a tropeçar pela casa. Caiu tantas vezes que os pais decidiram deixá-lo assim mesmo. Pararam de sair a rua com ele. Aos amigos, justificavam com uma explicação banal: Ele sofre de paralisia do maxilar. O fato é que de boca bem aberta o menino devorava as cores e as formas do mundo. Só depois dos dois anos de idade, com aqueles eternos lábios arreganhados, é que a mãe comprovara suas suspeitas sobre os sons que saíam do menino. Todo aquele tempo ele havia balbuciado suas primeiras palavras e chorado pelos ouvidos. Daí tanta secreção auditiva. Daí duas pupilas sem lágrimas, mais secas que qualquer deserto. O garoto foi crescendo e continuava a pronunciar suas frases sem mexer a boca, a qual piscava, abrindo-se e fechando-se. Era preciso deixar que a saliva lubrificasse a sua visão. As palavras do menino transbordavam de suas orelhas, enquanto seus lábios se moviam numa outra ordem. Era como se ele falasse com os lábios juntos e se calasse de boca aberta. As pessoas percebiam algo de estranho naquela criança. Num misto de preocupação e vergonha, os pais rodaram o mundo em busca de uma cura. De que mal sofria realmente? Nada. Os médicos, espantados. Os governos, interessados em financiar aquele excêntrico objeto de pesquisa. Mutação genética? Talvez. E se outros nascessem assim? Mas ainda faltava descobrir os demais sentidos. De acordo com os exames, o tato era mesmo o tato. O nariz sentia, como deveria, o cheiro. E o ouvir? Se o menino falava pelos ouvidos e via pela boca, então, como ele ouvia? Primeiro pensaram que era pelo nariz, já que era o orifício mais parecido com o do canal auditivo. Na busca por respostas, taparam-lhe as narinas algumas vezes. Desistiram quando a criança ficara roxa de tão sem ar. Foi aí que consideraram os olhos. Mas como? Como uma criança poderia ouvir pelos olhos? Como o mundo falava a sua língua para ela? Fizeram testes. Muitos testes. Desvendaram alguns mistérios, mas nada que explicasse aquela síndrome. Sabiam que, de olhos fechados, o menino ficava surdo e que, à noite, sua audição diminuía consideravelmente. Assim, deduziram que a luz era fundamental para aquela criança poder escutar. Somente no claro, os sons – ou aquelas visões auditivas – se pronunciavam com perfeição no pequeno. De tanto os pais acharem-no diferente, acabaram convencendo-o. Este nunca fora à escola. Os pais temiam a reação das outras crianças. Não queriam que seu filho sofresse com o preconceito ou que fosse tachado de anormal, embora a anormalidade do menino se acomodasse muito bem no seio familiar. E, tirando o fato do garoto sentir as coisas diferente, ele em nada se diferia das outras crianças. Aliás, era muito inteligente. Aos oito anos, de tanto assistir aos filmes americanos dos pais, aprendera a falar inglês pelos ouvidos. Era mesmo um mistério como o mundo dialogava, através de seus olhos, em alto e bom som com ele. Com as pálpebras abertas, o menino escutava todas as palavras. Bastava uma passada de olho do menino sobre as coisas para que elas lhe contassem o que eram. Cada objeto era uma mensagem sonora para aquele olhar. Quem sabe, por isso, ele tapasse os olhos quando queria um pouco de silêncio em sua cabeça. Um dia, aos nove anos, aproveitou que a mãe dormira até mais tarde e que o pai saíra para trabalhar, e desceu ao parquinho do prédio onde morava pela primeira vez. Todas aquelas crianças que ele sempre assistira boquiaberto pela janela estavam lá. Brincando felizes. Quando o viram, estranharam-no. Menos por ele ser um menino estranho do que por ele ser, de fato, um estranho para elas que nunca o haviam visto por ali: Você sempre morou aqui?, perguntou o Joãozinho do quinto andar. Sempre, respondeu mexendo a boca, tentando imitar o movimento labial das pessoas normais. Não funcionou. As crianças tinham uma enorme sensibilidade. Uma delas logo perguntou: Por que você mexe a boca engraçado e fala pelos ouvidos? Sem saber como reagir, o menino disse a verdade: Ah, eu nasci assim. Jura?!, disse a Aninha do 702. É!, ele respondeu. Aí, todas as crianças, achando aquela maneira de viver o mundo muito diferente do que elas estavam acostumadas, se agruparam em volta do garoto fascinadas. Cheias de curiosidade, fizeram-lhe mais de mil perguntas: Quando você fecha a boca você para de ver e fica no escuro? E você ouve pelos olhos? Ah, então é por isso que quando a gente tá falando com você seus olhos ficam arregalados? E você fala pelos ouvidos? Ah, então é por isso que você fala com a cabeça meio de lado? E por onde você come?, pelo nariz? E quando você ficar velho?, vai ter que usar óculos na boca? Nessa hora, foi uma gargalhada só… Mas antes que o menino pudesse terminar de responder, o Bruninho do 501, lá do fundo gritou: Ainda bem que você apareceu! A gente tava com o time vermelho faltando um jogador! Bora jogar? E foi assim, sob olhares infantis encantados e longe de olhares adultos infectados, que a doença daquele menino encantado… desencantou.

You Might Also Like

2 Comments

  • Reply Marcelo Ribeiro 22/04/2017 at 13:52

    Que lindo! Muito bacana, adorei!!!

    • Reply @domingas_admin 20/05/2017 at 17:00

      Fico feliz! Abração!

    Leave a Reply