Amor/Sentimento Reflexão/comportamento

Amor de príncipe

13/04/2018

Era uma vez um príncipe de um planeta distante chamado “Terra”. A primeira palavra que o príncipe pronunciou na vida foi “Amor”. E assim ele cresceu, se preparando para amar. Os pais do príncipe, atentos àquela vocação, decidiram chamar o grande sábio do amor para preparar seu filho à árdua tarefa de amar. * Notas sobre o sábio do amor: O verdadeiro nome do sábio é Odietamo, mas ninguém o conhece por isso, e, sim, por seu apelido, Latinlover. O tal sábio, que já havia preparado muitos outros casais, chegou à casa do príncipe com uma lista de casais que preparou para o amor. O currículo do sábio era mesmo impressionante. Ao longo de seus mais de seiscentos anos de vida, o sábio já havia aconselhado Dante e Beatriz, Tristão e Isolda, Romeu e Julieta, A Bela e a Fera, Dirceu e Marília, Capitu e Bentinho, A Dama e o Vagabundo, Cleópatra e Marco Antônio, Anita e Garibaldi, Rosinha e o Chico Bento, Carrie e Big, Edward e Bella e até mesmo o Mickey e a Minnie já haviam sido aconselhados por ele. É claro que nem todos esses casais deram certo. Afinal, segundo as palavras do mestre sábio, o problema no aprendizado está sempre com o aluno, nunca com o professor. E, mudando logo de assunto, o sábio, sábio que era, tratou de começar os preparativos do príncipe que nasceu para amar. Logo nas primeiras 500 lições, o jovem descobrira que o amor não era para qualquer um. No entanto, o fato dele ter vocação pro negócio, facilitou bastante seu aprendizado. O príncipe foi treinado para atirar com todos os tipos de armas, aprendeu a matar dragões de olhos vendados, a escalar montanhas de gelo, a atravessar rios infestados de piranhas, a nadar com tubarões, a andar descalço sobre brasa, a matar jacarés com as mãos, a pilotar caças, a lidar com nazistas e religiosos radicais, a sonegar imposto de renda, enfim, o príncipe estava mais do que pronto para enfrentar todos os obstáculos cabulosos que a árdua tarefa de amar lhe exigiria. Foi então que, ao entrar no Youtube, a atenção do príncipe se voltou para um vídeo – recorde de acessos. Era o vídeo de uma princesa presa numa torre implorando para ser resgatada. Segundo a linda jovem de seios fartos silicone, o agradecimento pelo resgate seria uma mulher virgem e pronta para amar, com ternura, seu marido por toda a vida. O príncipe, seduzido pela possibilidade de descabaçar uma mulher – afinal, mulheres virgens e dispostas a prometer amor eterno a seus maridos, em seu planeta pelo menos, estavam mais extintas que gente sem Facebook. Preparado pelo sábio, viu sua definitiva oportunidade de colocar em prática toda a sua vontade de amar. Fez sua mochila, afiou sua faca, preparou sua Bersa modelo PT Thunder 380 niquelada, fez a barba, passou desodorante italiano, montou na sua Hayabusa e lá se foi… atrás do amor. Segundo seu GPS de última geração, o príncipe seguia pelo caminho certo. Mas, ao contrário do que havia imaginado, não viu dragões, escorpiões, leões, desfiladeiros, espinhos… Nem trânsito o príncipe pegou. Nem sequer uma estrada esburacada. Nada. O caminho era limpo e o asfalto até a torre da princesa era o mais liso que o príncipe já havia visto em toda sua vida. Ao descer da moto, o príncipe olhou pra cima. Lá estava ela. Linda. Maravilhosa. O príncipe tirou sua mochila das costas, deixou seu Okley na moto e foi até a porta da torre esperando ter de arrombá-la. Que nada. A porta nem trancada estava. Dentro da torre, havia uma escada em espiral e, logo ao lado desta, um elevador em perfeito funcionamento. O príncipe pressionou o botão, o elevador se abriu. Entrou, apertou o último andar. Ao ouvir o elevador chegando, a princesa, saiu correndo em direção àquele homem que seria a cura para todas as suas infelicidades. Mas… Cadê? Onde estaria o príncipe desaparecido? Pela janela da torre, a única esperança que a princesa ainda tinha de ser amada, já que nunca passou pela sua cabeça amar-se a si mesma, partia com o barulho aceleradíssimo daquela Hayabusa prateada.

E pra quem não entendeu nada… Eis a versão do príncipe, regada à cerveja, contada aos risos numa mesa de bar.

… A porta nem trancada estava. Dentro da torre, havia uma escada em espiral e logo ao lado, um elevador em perfeito funcionamento. Eu pressionei o botão, o elevador se abriu. Entrei, apertei o último andar.  E quando a porta estava prestes a se fechar, numa luz de pensamento, coloquei as mãos desesperadas pra fora da caixa de metal, o que fez o sensor abrir novamente o elevador e me deixar sair correndo dali.

E agora a versão desnecessária da narradora deste conto de fadas contemporâneo…

Na verdade, o que aconteceu foi que, estranhando toda aquela facilidade de amar, toda aquela paz, toda aquela falta de concorrência e todo aquele conto de fadas de moça virgem, o príncipe acabou achando aquela história complicada demais… Segundo dizem por aí, (não posso afirmar a veracidade desse fato) o príncipe achou mais simples se casar com uma bruxa, afinal, aprendera com o grande sábio que amar era uma tarefa muito, muito árdua. E foi assim que o príncipe e a bruxa viveram o amor que todos no seu reino pareciam buscar… “Infelizes para sempre…”

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