Experimentos Literários Reflexão/comportamento

Entrevista que dei para o Jornal ‘O Tempo’, de Belo Horizonte, MG.

25/05/2018
  • Você é formada em comunicação e em direito. Como você decidiu ser escritora? Quando você começou a escrever?

Na verdade, sou formada em Comunicação e Letras. Fiz pós em Processos Criativos e mestrado em Teoria da Literatura. Direito eu cursei até o último ano, mas optei por não terminar. Na época eu já sabia que o que eu queria era mesmo literatura e que advogar não seria uma opção pra mim. Quanto à decisão de ser escritora, costumo dizer que a tomei aos cinco anos de idade. Isso porque minha mãe guarda até hoje um poeminha meu, na verdade uma espécie de paródia de “batatinha quando nasce”, que datava mais ou menos dessa idade. Assim, acho que a decisão de lidar com a escrita e de me expressar por meio da palavra veio lá da infância, mas é claro que a opção pela profissionalização se deu em 2009, quando decidi fazer um blog de textos e colocar minhas ideias para voar. Foi a partir desta época que a faculdade de direito perdeu sua força em mim e eu decidi largar tudo para recomeçar em BH, fazendo um vestibular pra Letras, na UFMG. Quanto à minha estreia nas publicações oficiais, digo, lançamento de livro, isso aconteceu em 2013, com o ‘Poços dos Desejos’.

  • Quem são suas referências e como eles influenciaram seu trabalho?

Tive muitas referências ao longo da vida. Para cada fase um autor diferente tornou-se o meu porto-seguro. Já passei por muitos, mas posso dizer que, na Poesia, meu primeiro encanto maduro e sincero foi por Adélia Prado. Ela e seu livro Bagagem – que ganhei de presente – me abriram as portas para o espanto. Já na prosa, foram diversos, mas acho que não estaria mentindo se lhe dissesse que o aconchego, mesmo, eu achei no Garcia Márquez e o seu imbatível Cem anos de solidão. É claro que muitos outros fizeram e fazem parte de mim. No campo da crônica, eu diria que Martha Medeiros e Marina Colasanti me deram um norte bem interessante. Enfim, como disse, essa lista de autores e influências é feito as areias de um deserto, nunca para de se mover.

  • Qual o papel da literatura?

A literatura tem muitos papéis. Em cada pessoa ela irá desempenhar um papel distinto. Mas acho que, para mim, a literatura é um campo de experiência, não apenas de criação e de construção de sentidos a partir da conjugação de palavras, mas experiência no sentido de abertura para a vida. Com a literatura – e as artes em geral – nós podemos ler o mundo por outras letras, enxergar além de nossos olhos, nos transvestir em outros, entender a vida a partir de novas perspectivas, abrir portas que, sozinhos, não seríamos capazes. Para mim, a Literatura é quase um ensinamento de empatia, essa capacidade que temos de nos colocar no lugar do outro, de entender que o mundo e os seres humanos são mais vastos e complexos do que podemos imaginar. E a Literatura nos permite alcançar isso com facilidade. Ela me ensina a viver, a amar, a sofrer, a enxergar, a não temer, a duvidar, a questionar, a encarar, a me encantar, a ser…

  • Como se dá o seu processo criativo? O que lhe causa inspiração?

Muitas coisas me inspiram. O mundo é um parque de diversões para quem tem os poros da pele abertos ao encanto. As ruas, as cidades, os animais, um copo vazio sobre a pia, uma geladeira aberta, uma samambaia seca, um peixe-palhaço dentro de um aquário no consultório de um dentista, um poema escrito à caneta num papel amassado sobre a mesa, um texto jornalístico lido pelo celular, um documentário visto pelo Youtube, um filme do Netflix, uma cena super clichê de uma novela mexicana qualquer, um casal namorando no banco de uma praça do interior, o adolescente pegando na mão da namoradinha, enfim, a vida é um mosaico de espantos, temos apenas que estar atentos. Acredito que um escritor, antes de saber escrever, ele precisa aprender a ver. O olhar vem antes da palavra. Essa sensibilidade de absorver o mundo como se ele fosse para sempre uma primeira vez, isso, sim, faz um escritor. E aí, depois de aprender a ver, é que essa pessoa poderá sentar na frente de uma folha em branco e traduzir tudo isso em um encadeamento de palavras que irá tocar a alma de um outro ser humano.

Quanto ao meu processo criativo, eu diria que ele não tem muita linearidade. Acho a escrita um processo meio intuitivo. Se hoje acordo mais para a poesia, ok, escrevo um poema. Se amanhã, no entanto, eu levantar da cama e achar que estou mais pra crônica, ok também, sento e escrevo quantas crônicas conseguir naquele afã. Aprendi a respeitar o meu processo. Um dia sento e escrevo seis horas seguidas um capítulo de um romance. No outro, escrevo um conto. No terceiro dia, não escrevo nada e passo a tarde assistindo a filmes e documentários. No quarto, saio pelas ruas flanando e, de repente, já estou com o bloco de notas do celular na mão escrevendo e escrevendo. Meu escrever é meio picado. Não me preocupo muito em construir uma “linha de produção”. É claro que sempre me cobro estar escrevendo, seja o gênero que for, afinal, a escrita é minha profissão. Fora isso, escrever também é uma forma de me apaziguar. A escrita é um divã, me traz harmonia interna. Quando fico muitos dias sem, parece que vou me afogar. Uma sensação esquisita, de sufocamento. Aí, já sei, é hora de sentar e desaguar. Maravilhoso.

  • Por que você escolheu BH para viver? O que você acha da cidade?

Na época em que vim pra BH eu já namorava uma pessoa daqui fazia cinco anos. Era um namoro – muito sério e apaixonado – à distância. Foi uma fase ao mesmo tempo gostosa e penosa. Namorar de longe tem seus prós e contras. A coisa da saudade pode ser boa por um lado e ruim por outro. Só que, depois de meia década indo e vindo todo final de semana – haja estrada  e amor pra tanto vai-e-vém, né?! – decidimos tomar uma providência. Aí, eu que já não estava mais a fim de trabalhar com direito (eu havia acabado de passar num concurso público para o Tribunal de Justiça), decidi largar tudo e recomeçar. Fiz o vestibular pra UFMG, Letras, passei, pedi exoneração do cargo e tchau. Não tenho muito problema em deixar coisas para trás. Especialmente quando entendo que aquilo que deixei não era pra mim. Sou intensa nesse sentido. Escorpiana, sei lá, não tenho muita vocação para sustentar o morno. Além disso, tenho facilidade de adaptação e lido bem com mudanças. Mudar é respirar um novo ar, me traz novas inspirações e faz com que eu me sinta uma “estrangeira”, ou seja, ao me deslocar da minha zona de conforto eu me torno um peixe fora d’água, saio do terreno do conhecido e isso sempre me engrandece. Acho que eu tenho uma ideia meio budista de que a única permanência da vida é a impermanência, logo, absorvo o que cada lugar tem de especial, aprendo com e no agora, observo, me reconstruo, me deixo pra trás e, assim, acabo vivendo muitas vidas, compreendendo que o mundo é um lugar de muitos olhares e de muitas possibilidades. Para a minha carreira isso é fantástico. Já morei em vários lugares. Angra, Rio, Petrópolis, Belo Horizonte, Buenos Aires, Santiago no Chile, Estados Unidos e agora no final de setembro estou me mudando para Portugal. De qualquer forma, sobre BH, tenho que confessar que esta foi uma cidade muito importante na minha vida de escritora. Meus três primeiros livros foram lançados aqui, o que diz muito do quanto eu sou grata a este lugar e a este povo tão acolhedor que é o mineiro. Fui muito bem recebida e fiz muitas amizades queridas. Isso não tem preço. Guardarei esta cidade com muito carinho no cofre mais valioso do mundo: meu coração.

  1. Por que você vai deixar o Brasil?

Sobre minha mudança pra Portugal, acho que foi, mais uma vez, uma decisão intuitiva. Acordei um dia e pensei: Portugal, por quê, não? Eu já tinha dupla nacionalidade, já tinha o passaporte português, meu amorzinho estava disponível pra me acompanhar, “então, vamos? Vamos!” Foi meio assim. Na época, eu estava no período de férias do mestrado e também das aulas (até o semestre anterior eu estava assumindo algumas cadeiras como professora substituta na Faculdade de Letras, da UFMG). Achei que poderia ser uma oportunidade, afinal, eu nunca tinha morado na Europa e, sendo o mesmo idioma, eu poderia seguir investindo na minha carreira. Na verdade, foi essa vontade de investir em mim como artista que me atraiu muito. Pensar em me jogar de corpo e alma na escrita, num país novo, investir nos vídeos que eu ando fazendo, pensar em novos projetos, enfim, tentar ampliar meu leque. É claro que eu não penso em me descolar do Brasil. Amo esse país e seguirei mantendo meus leitores e minha escrita voltada pra cá usando, para tanto, os meios digitais. Com eles, a distância fica menor. E é claro que eu também penso em estar sempre fazendo lançamentos por aqui, meio que um io-io, um bate e volta, um vai-vém. Adoro isso. Ademais, não estou indo com planos muito certos, no sentido de se ficarei por x ou y anos. Nós vamos e tentaremos fazer dessa experiência algo significativo. Estamos indo de coração escancarado e alma leve, sem pensar se voltaremos ou quando voltaremos ou, até mesmo, se ficaremos por lá pra sempre. Pra sempre é muito tempo, então, deixa a vida vir e aquilo que vier nós receberemos e agradeceremos, como já fazemos.

  1. Como surgiu a ideia de escrever Poços dos Desejos e Do Deserto?

‘Poços dos Desejos’ foi meu primeiro livro. Na verdade, ele foi uma coletânea de prosas poéticas que eu escrevi durante uns quatro ou cinco anos. O meu intuito com ele foi produzir uma série de textos que – voltados à temática do amor – pudessem ser declamados. No fundo, o que eu queria era usar este livro para poder me tornar uma espécie de trovadora que, tal qual os menestréis medievais, pudesse sair pelas estradas cantando suas composições. E até que deu certo. Eu cheguei a fazer muitas apresentações poéticas com este livro: no Palácio das Artes, no Memorial da Vale, no Museu Inimá de Paula, etc. No Youtube há vários vídeos gravados destas apresentações. De fato, o livro é quase todo declamável. Ele foi escrito para ser falado. Seu ritmo é muito vivo e poético. Além disso, com ele, eu queria também inverter essa lógica de que nós, mulheres, temos que ser as princesas que ficam à espera do príncipe que vai nos cantar sua poesia debaixo de nossas sacadas. Eu queria sair desse lugar passivo que a história nos reservou e nos colocar na posição de cantadoras, de trovadoras, daquelas que declamam, que detêm a voz, que podem – e devem – atuar ativamente na conquista, se declarando para os seus pares, sejam eles príncipes, ogros, sapos ou até mesmo outras princesas.

Quanto ao ‘Do Deserto’, ele foi um livro que eu chamo de pura inspiração. Uma noite eu não conseguia dormir e ficava na cama meio que num estado de vigília, fritando. De repente, uma voz começou a ecoar na minha cabeça. Eram os versos que iam se fazendo por dentro e eu, já conhecendo o processo da poesia em mim, levantei correndo, peguei um lápis e, quase que numa espécie de transe, fui escrevendo os poemas do livro. De uma vez saíram 18 dos 33. Foram eles que deram a abertura e a linha temática para o conjunto. ‘Do Deserto’ é uma obra metalinguística, isto é, fala sobre o próprio fazer poético, sobre o próprio ser do poeta. E a imagem do deserto é muito poderosa em minha vida. Eu tinha acabado de voltar de uma viagem ao Salar de Uyuni, na Bolívia, um deserto de sal que em algumas épocas do ano recebe algumas chuvas que fazem, do chão, um espelho para o céu. Por si só, ele já é uma experiência poética. Fora ele, eu também visitei o Deserto de Atacama, no Chile, outra vivência que me marcou imensamente e que, somada à da Bolívia, acabou se impregnando em mim de tal modo que culminou na escrita do livro. Se pensarmos bem, a folha em branco, para qualquer escritor, é uma espécie de deserto à espera da palavra, da tatuagem da letra. Trata-se de um abismo, de um desafio e também de uma condição de medo. É tanta liberdade, são tantas as possibilidades de rota que, assim como uma pessoa deixada no meio de um deserto, nos faz nos sentir perdidos, desnorteados, sem saber para onde ir ou como ir. Acredito que o livro fale sobre isso, sobre esse atravessamento dos desertos que todo escritor deve estar disposto a vencer para chegar ao final de uma criação. E, claro, acaba falando também, por espelhamento, sobre a vida, esta travessia que todos nós, como passagens e pegadas, igualmente temos que fazer até o chegar do dia do desconhecido.

  • Qual o gênero literário que mais lhe agrada? Como gostar de poesia?

Assim como na vida, também sou muito eclética na questão dos gêneros. Acho que cada um tem sua hora, sua pegada. São como os trajes que vestimos de acordo com a necessidade. Da mesma forma que não vamos a um casamento de biquíni, também não vamos usar um vestido longo pra irmos à praia. Cada gênero tem sua hora em mim. Poesia eu gosto de ler com tempo, em locais mais silenciosos, por achar que se trata de um mergulho um pouco mais profundo. A poesia mexe muito comigo e, normalmente, sempre me leva a escrever. Já a crônica ou o romance, dependendo da época, eu gosto de ler em locais mais descontraídos. Tem um outro gênero que eu gosto muito, que é o ensaio, mas para este eu preciso estar com mais tempo e mais silêncio. Como disse, não sou tão linear. Costumo respeitar as vontades que me batem do jeito que elas batem e ir para onde o desejo quer que eu vá.

Quanto à segunda questão “como gostar de poesia”, acho que se abrindo para ela. Perdendo esse conceito preconcebido, este “pré-conceito”, de que poesia é difícil, ou de que é para poucos, ou de que serve apenas para os literatos ou acadêmicos. A poesia está mais perto da vida do que podemos imaginar, Manoel de Barros que o diga. É claro que este gênero pode ser, por vezes, mais lacunar que a prosa, o texto corrido. Mas é que um poema precisa se valer das lacunas, dos saltos, dos vazios, para poder voar mais longe, criar mais ambiguidades, deixar o leitor um pouco à deriva. A questão é que nós, ocidentais principalmente, temos uma noção trazida por Descartes que se vale muito da lógica do A ou B, do 0 ou 1. Temos esse pensamento meio excludente, meio binário, maniqueísta demais pro meu gosto, essa coisa de achar que uma mesma coisa não pode ser uma outra coisa e ainda assim ser a mesma. É sempre ou isso ou aquilo. Z sempre precisa ser igual a Z e Y igual a Y. Já para o oriental, e o símbolo do yin/yang está aí pra mostrar, Z pode sim ser igual a Y, já que, em essência, viemos todos de um mesmo lugar, pulsamos todos os mesmos átomos das estrelas. Nada é tão distante de nós que não possa ter e conter uma parte de nós. E a poesia encarna esse tipo de pensamento, que é mítico, que é capaz de unir opostos, que pode conter a imagem de um “peixe decantado” ou de um “coração-pássaro”. Acho que para se ler poesia, temos que abrir mão de uma razão que nos limita a pensar que um peixe nunca pode se decantar e nem um coração pode ter asas que o levem a voar. Temos que voltar a ser um pouco crianças, abertos a imaginar que tudo pode ser, se assim conseguirmos imaginariamente alcançar. Se a vida tivesse que ser tão preenchida e tão linear como a gente às vezes pensa que ela deveria ser, viver seria uma chatice sem tamanho. Uma coisa sem qualquer vida, já que não há nada mais vivo do que o acaso, a surpresa, o ilógico, o imprevisto, a lacuna, o incomum, o paradoxo. Não há movimento se não houver uma falta. Já reparou naqueles tabuleiros cheios de quadradinhos que se movem para gerar uma imagem? Se não houvesse um quadradinho daqueles faltante, não haveria jogo, não haveria diversão. Daí, abrir-se a este lugar sensorial é muito importante para entender – ainda que sem compreender racionalmente – a essência do poético.

  • Como você vê o mercado editorial no Brasil?

Minha experiência com este mercado ainda é recente. Estou nele há apenas 4 anos. Porém, até pelo meu modo de olhar para o mundo, tenho a mania de pensar que ou está tudo bem ou, se não, que vai melhorar. Aposto nisso e não olho muito para as adversidades. Sou meio utópica, por assim dizer. Sabe aquelas pessoas que juram que ainda vão ganhar na mega-sena?! Então, essa sou eu. E não ligo muito se ou outros me olham com aquele olhar de “coitadinha, tão iludida”. Só sei que viver desta maneira me faz mais feliz, mais leve. E, no fundo, tudo o que eu busquei da vida, ela, generosamente, me deu, logo, não posso me queixar. Atualmente, venho apostando no meio digital. Desde o meu último livro de crônicas, ‘Viver é meu Vício’, tenho investido no mercado online. Acredito que esta é a nova via de acesso para aqueles que querem colocar seus livros em circulação. É claro que estar em livrarias físicas também ajuda, alavanca, mas temos que pensar que o virtual, até segunda ordem, veio para ficar. E eu não costumo criar muita resistência ao novo, pelo contrário, estou sempre buscando me adaptar, me inserir. Não quero ser como aqueles que envelhecem dizendo “no meu tempo…”. Pra mim não existe isso de “no meu tempo”. O meu tempo é hoje, a minha vida é agora. Ontem, amanhã… pertencem ao calendário da ilusão, ou melhor, da ficção.

  • Somos um país de poucos leitores. Por que você acha que isso ainda acontece?

A leitura é um hábito que eu adquiri na infância. Acho que, antes mesmo da escola, a influência do exemplo familiar, dentro de casa, para uma criança, é fundamental. Eu via meu pai e minha mãe lendo o tempo inteiro. E ficava me perguntando: “o que será que há por trás desses desenhinhos (letras) que tanto os encanta?” Tudo isso me fez aflorar aquela curiosidade que, somada à contação de histórias feitas por aqueles disquinhos coloridos tocados naquelas vitrolinhas antigas (meu pai sempre me presenteava com eles), acabou me abrindo as portas para os mais variados lugares da imaginação. Deste modo, eu me tornei uma leitora antes mesmo de ser capaz de ler. Só depois, lá na frente, é que veio a escola. E aí eu já respondo a sua próxima pergunta. A minha experiência com a literatura na escola foi boa, mas não ótima. Eu acho que o ensino dessa disciplina no colégio é muito burocrático, engessado. São raros os casos em que este se dá de maneira fluida, gostosa, por prazer. Essa coisa de cobrar um questionário dos alunos cujas respostas têm de ficar dentro daquele famoso “gabarito oficial” é de uma clausura sem precedentes. Fazer um menino ter que se expressar dentro de tantos limites, ter que entender o texto por um olhar que às vezes não é o dele, na minha opinião, por si só, já viola a própria essência do literário. A Literatura para mim habita o lugar do artístico, do expansivo, do ambíguo, daquilo que admite muitas leituras e interpretações, portanto, querer prender uma criança dentro da gaiola de um “gabarito oficial” seria, de certa maneira, inibir o crescimento de suas asas. E se essa inibição ocorre logo nos primeiros contatos com o livro, ela será fatal e poderá dirigir toda uma impressão acerca do que é literatura, isto é, um troço chato, que te cobra respostas prontas e que te obriga a pensar como alguém previamente determinou. Nada mais anti-criativo e decepcionante para um jovem que busca um aprendizado que vem pela experiência lúdica, não pelo autoritário.

  • Você acha que a Literatura que é ensinada nas escolas afasta as crianças da leitura?

    *Respondi junto com a anterior.

  • Para quem não teve o hábito de ler, o que você sugere para começar?

Eu sugiro buscar livros com temas que te atraem. Se você gosta de temas leves, coisas sobre o dia-a-dia, comece com um livro de crônicas. Se você tem a veia mais romântica, procure um livro tipo “Comer, rezar e amar”. Se você curte viagens ou aventuras, tente um Amyr Klink. Se você quer algo mais profundo e mais poético, procure os contos de uma Clarice Lispector ou de uma Lygia Fagundes Telles. Se quer poesia, vá de Manoel de Barros. Se quer algo mais realista e irônico, vá de Machado de Assis. E se você é uma mãe que quer que seu filho leia, mas ele diz que não suporta ler, escolha um livro que dialogue com aquilo que ele gosta. Pois todo começo de hábito exige um esforço maior, seja qual for a atividade. Então, vamos supor que seu filho seja um menino de dez anos que diz detestar ler, porque, no fundo, só pensa em futebol. Perfeito. Dê a ele uma biografia sobre a trajetória de vida de um Messi, de um Neymar, de um Pelé, enfim, ídolos que despertariam seu interesse e que o fariam ler sem ele sequer perceber que está lendo. Acho que seguir por um caminho que nos abraça, ao menos em um primeiro momento, facilita o rompimento dessa barreira que separa uma pessoa da palavra impressa. No caso do menino, presenteá-lo com a vida de um ídolo poderia fazê-lo perceber que ler não é um sacrifício, mas um prazer. E daí em diante ele iria sozinho. Eu, particularmente, sou um pouco contra – e aqui provavelmente vou levantar um pouco da ira de meus colegas acadêmicos de Letras – essa coisa de achar que somente literatura de alto calão é que deve ser consumida. Por exemplo, na academia o povo costuma ter muita antipatia por alguns autores Best Sellers (não vou citar nomes porque não acho ético). Alguns chegam a dizer que é melhor não ler nada do que ficar lendo essas “coisas”. Eu, sinceramente, entendo que há níveis e níveis de interesse. Então, se para começar a ler, uma pessoa precisa de uma porta fácil de entrada, ainda que cheia de clichês, eu prefiro que a deixem aberta. Essa coisa de ou isso ou aquilo, ou o melhor ou nada, não funciona pra mim. Acho que há pessoas e pessoas no mundo. E acredito que uma pessoa que inicia seu hábito de leitura com um Best Seller, amanhã pode vir a se interessar por um Mário de Andrade, por um Dostoiévski… O apuro da leitura e seu interesse é algo que vem gradativamente. É como quando a gente é adolescente e acha que vinho sangue de boi é que é vinho bom. Depois, a gente amadure – graças a Deus – e percebe que não há nada pior do que vinho chapinha. É uma questão de ir requintando o paladar. O saber, como dizia Roland Barthes, tem que estar atrelado ao sabor. Caso contrário, será algo que rapidamente nos fará perder o tesão. Tenho um olhar muito otimista para vida e para o ser humano. Acredito que podemos melhorar sempre. Mas acho que a melhor maneira de chegarmos ao vigésimo degrau é começando pelo primeiro e não pelo décimo.

  • A História nos mostra que o homem sempre tratou a mulher como um ser inferior. A mulher não tinha espaço para os estudos, para a ciência, nem para as artes. Como você vê a situação da mulher hoje em dia?

O Brasil vem passando por um processo de despertar para a questão da  desigualdade como um todo. No caso da desigualdade de gênero, estamos vendo o nascimento de muitos movimentos, sororidades, enfim, um maior engajamento entre mulheres, especialmente, por parte das mais jovens. Isso é muito importante. Entretanto me pergunto se estes movimentos chegam a atingir as mulheres que não estão nos grandes centros urbanos ou se atingem aquelas que ocupam, nas grandes e médias cidades, as classes economicamente menos favorecidas. Se levarmos em consideração que o nosso país é o quinto do mundo em feminicídio, isto é, assassinato de mulheres motivado por ódio ou desprezo ao gênero, percebemos que ainda temos um longo percurso de conscientização a ser trilhado. A própria mídia, por exemplo, ajuda na dispersão de certos lugares estereotipados para a mulher. Ainda somos retratadas de maneira objetificada. Muitas vezes me questiono por que é que os tão criativos marqueteiros ainda não foram capazes de pensar, por exemplo, em um comercial de cerveja que apresente, não uma mulher gostosa de microssaia servindo uma mesa cheia de homens, mas, quem sabe, nem que seja para fugir do clichê, uma mesa de mulheres ansiosas pelo garçom gostoso e sem camisa que virá trazer-lhes suas cervejas geladas. Brincadeiras à parte, temos que pensar por que é que, num país em que 52% de sua população é mulher, em que somos responsáveis financeiramente por quase 40% dos lares brasileiros além de sermos 55% nas escolas e universidades, uma questão como essa ainda precisa ser insistentemente debatida. A igualdade de gênero, pelos números citados, já deveria ser uma realidade. Mas não é. Ainda temos duplas jornadas de trabalho, recebemos salários diferenciados, somos vítimas de demissão após licença maternidade, sofremos assédio moral, ainda ouvimos – insanamente – pessoas culpando a mulher, vítima de um estupro, por seu shortinho curto em vez de responsabilizarem o verdadeiro criminoso, o estuprador. Infelizmente, ainda somos julgadas e apontadas socialmente nos casos em que nossas condutas fogem do dito “padrão puritano de comportamento”, principalmente quanto à questão relacionada ao sexo. Fora isso, temos de nos perguntar por que, ainda, nossa sociedade acha normal a relação que se faz entre mulher e casamento. Ninguém pensa que um homem é menos realizado porque nunca se casou. Já no caso das mulheres, isto é quase uma insígnia de falência. Daí expressões pejorativas tais como “ficou pra titia” ou “solteirona”. E dentro de nossas casas, nós ainda vemos mães – infelizmente – criando os filhos de modo diferenciado, estabelecendo tarefas distintas, dependendo do gênero da criança. O menino não precisa ajudar na cozinha, lavar a roupa, lavar a louça. O menino permanece sentado no sofá, na frente da tv, isento de colaboração, enquanto as “mulheres” da casa põe e tiram a mesa do jantar. E por quê? Nós, mulheres, somos seres inteligentes e, portanto, capazes de fazermos escolhas inteligentes. Somos seres independentes, fortes e de atitude. Ainda que o mundo ache, erroneamente, que só porque não temos o “falo” físico – tão sobrevalorizado em nossa sociedade patriarcal -, não podemos ser “fálicas” – e digo isso querendo dizer “ativas e capazes”, nós podemos. Acredito que depois de muita luta, hoje, conquistamos um lugar de fala, ajudado, em muito, pelos novos meios de comunicação em rede. E acredito que será a partir deste lugar que conseguiremos promover a ampliação da conscientização. É preciso que usemos este lugar de fala, que há tão pouco tempo pertencia somente ao espaço do falo, dos homens, para falarmos sobre esta desigualdade. Você fala, eu falo, nós falamos, nós precisamos falar. Será por este lugar de voz, tão poderoso, que nós poderemos nos empoderar. Precisamos falar sobre empoderamento feminino, que nada mais é do que dar à mulher a liberdade para ela fazer suas próprias escolhas; dar à mulher o direito de ter seus direitos respeitados. Precisamos falar sobre feminismo, palavra que, ao contrário do que se disseminou por aí, não quer dizer “ódio aos homens”. Longe disso. Feminismo é uma palavra que quer dizer: “direitos sociais, políticos e econômicos iguais aos dos homens para as mulheres”. Para fechar, creio que, em termos de igualdade, apesar de já termos conseguido promover muitas mudanças, ainda temos um longo caminho pela frente. E acho que o papel das mulheres é tão importante quanto o dos homens nesta campanha por direitos iguais. Que da união de todos, independentemente do gênero, nasça a nossa força. Esta é a minha expectativa.

*Para ilustrar um pouco o que foi dito acima, seguem, em anexo, dois textos que escrevi relacionados ao tema “mulher” e “desigualdade de gênero” e os quais geraram muitos engajamentos e compartilhamentos no Facebook e Instagram (“Mulher”; e “Galinha x Galinha x Galinha).

  • Qual a importância de você ser uma escritora mulher na literatura?

Infelizmente, como mostrei acima, ser uma escritora mulher ainda é fazer parte de um clã ou, se preferir, de uma minoria. Espero realmente que este tipo de questionamento não seja sequer necessário em um futuro não muito distante. Só o fato de eu ter que reconhecer que esta é, ainda, uma diferença, isso já implica dizer o quanto estamos atrasados na questão da igualdade de gêneros. Triste, contudo real.

  • Qual a importância de uma feira literária especialmente a FLIP de BH?

Para mim, uma feira literária é um lugar de encontros. Encontros de leitores com livros, de leitores com leitores, de leitores com autores, de autores com autores, de autores com editores, de editores com editores, resumindo, um local que fomenta o intercâmbio de ideias, de estímulos, de gente, de conhecimento… Trata-se de um evento ao mesmo tempo sério e lúdico, um espaço que tem como vedete a leitura, esta ferramenta magnífica capaz de ampliar o modo como as pessoas percebem o mundo, quer coisa melhor?!

  • Como fazer para adquirir seus livros?

Fácil. Mídias Digitais. Entre em contato diretamente comigo via Facebook ou Instagram: Domingas Alvim. Ou, se preferir, também por email: domingasalvim@gmail.com

  • No seu mais recente livro Viver é Meu Vício, você aborda a complexidade da vida contemporânea. Qual a intenção do livro ao reunir uma coletânea de crônicas?

Mostrar ao leitor que todo livro, de certo modo, é um recorte da vida. “Viver é meu Vício”, sendo ele um mosaico de pequenos vislumbres sobre o que é a vida e o estar vido, revela o viver em suas muitas possibilidades. A maioria das crônicas falam sobre coisas do cotidiano, daquele mínimo que automatizamos e acabamos perdendo do olhar. Aquelas importâncias sutis que, apesar de serem pequenas faíscas, se ficarmos atentos, podem brilhar mais que estrelas. O livro aborda uma miscelânea de temas, fala sobre sentimentos, humanidade, relacionamentos, angústias, medos, superação, respeito, amizade, morte, família… Trata-se de uma obra que se faz como um tecido de vários fios, tal qual a vida que nos tece. Uma composição para a qual selecionei escritos de muitas épocas: eu no Rio, eu em Petrópolis, eu nos EUA, eu no Chile, eu em BH. Quis retratar o antes e o depois, até para mostrar que o viver é apenas uma passagem de nós mesmos pelos trilhos da vida.

  • Com tanto caos lá fora e tanto aqui dentro de nós, como achar beleza na vida?

Entendendo que a beleza habita o caos tanto quanto a ordem; que está na suavidade da pétala, tanto quanto na ranhura do espinho. Há beleza espalhada por todos os cantos, fora e dentro. Há beleza na tristeza, na angústia, no drama e na dor. Assim como há beleza na alegria, na confiança, na comédia e no amor. Ser humano é saber sentir essa dádiva que é estar vivo pulsando em tudo aquilo que nos circunda. Faz parte de nossa experiência, de nosso aprendizado de vida, aprender a lidar não só com as maravilhas e com os encantos, como também com os abismos, com os medos, com tudo aquilo que nos põe aparentemente fora dos trilhos. Aprender a ser humano é aprender a abraçar o mundo e suas realidades sem julgamento. É assim que o amor se faz mais pleno e nos alcança em raiz, nos fazendo ser o amor capaz de amar o belo que existe por trás da face do mostro. Pelo menos é assim que eu faço para conseguir seguir em frente com um sorriso, e às vezes, sim, com uma lágrima, no rosto.

 

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